A relação entre perda auditiva e demência: o que a ciência já sabe
- Dra. Vanessa Ribeiro Orlando

- 10 de jul.
- 3 min de leitura
Nos últimos anos, diversos estudos científicos têm demonstrado uma forte associação entre a perda auditiva e o desenvolvimento de demência. Embora uma condição não seja necessariamente a causa da outra, as evidências mostram que pessoas com perda auditiva não tratada apresentam maior risco de desenvolver declínio cognitivo ao longo dos anos.
Entender essa relação é fundamental, principalmente porque a perda auditiva é um fator de risco modificável. Ou seja, quando diagnosticada e tratada precocemente, ela pode contribuir para preservar a qualidade de vida e a função cerebral.
O que é a perda auditiva?
A perda auditiva é a diminuição da capacidade de ouvir sons em diferentes intensidades ou frequências. Ela pode surgir em qualquer idade, mas torna-se mais frequente após os 60 anos.
Entre as principais causas estão:
Envelhecimento natural (presbiacusia);
Exposição prolongada a ruídos intensos;
Infecções;
Doenças metabólicas;
Uso de medicamentos ototóxicos;
Alterações genéticas.
Muitas pessoas acreditam que ouvir menos faz parte do envelhecimento e acabam adiando a procura por um especialista (otologista), o que pode trazer consequências que vão além da comunicação.
O que a ciência descobriu?
Um dos estudos mais importantes sobre o tema foi publicado na revista científica The Lancet. A comissão internacional sobre prevenção da demência identificou a perda auditiva na meia-idade como um dos principais fatores de risco potencialmente modificáveis para o desenvolvimento da doença.
Pesquisas mostram que quanto maior a perda auditiva, maior tende a ser o risco de declínio cognitivo e demência.
Isso não significa que toda pessoa com perda auditiva desenvolverá demência, mas indica que preservar a audição faz parte de uma estratégia importante para manter o cérebro saudável.
Por que a perda auditiva pode aumentar o risco de demência?
Ainda existem estudos em andamento, mas algumas hipóteses já são bem aceitas pela comunidade científica.
1. Maior esforço do cérebro para compreender os sons
Quando a audição diminui, o cérebro precisa gastar mais energia para interpretar as palavras e os sons do ambiente.
Esse esforço constante pode reduzir os recursos disponíveis para outras funções cognitivas, como memória, atenção e raciocínio.
2. Isolamento social
Quem ouve mal costuma evitar conversas, reuniões familiares e eventos sociais por dificuldade de acompanhar o diálogo.
O isolamento social é um fator conhecido de risco para depressão e também para o desenvolvimento de demência.
3. Menor estimulação cerebral
A audição mantém diversas áreas cerebrais constantemente estimuladas.
Quando os estímulos sonoros diminuem por longos períodos, algumas regiões do cérebro podem sofrer redução da atividade e até alterações estruturais ao longo do tempo.
Tratar a perda auditiva pode ajudar?
As pesquisas indicam que sim.
Embora ainda não seja possível afirmar que tratar a perda auditiva impeça totalmente a demência, diversos estudos mostram que pessoas que utilizam corretamente aparelhos auditivos, quando indicados, apresentam melhor comunicação, maior interação social e podem reduzir o ritmo do declínio cognitivo em comparação àquelas que permanecem sem tratamento.
Além disso, manter a audição preservada favorece a autonomia, a qualidade de vida e o bem-estar emocional.
Como é feito o diagnóstico?
O primeiro passo é uma avaliação com um médico especialista (otologista), que investigará a causa da perda auditiva.
Em seguida, são realizados exames específicos, como a audiometria, que permitem identificar o tipo e o grau da perda auditiva.
A partir dos resultados, o tratamento é individualizado e pode incluir:
Tratamento da causa da perda auditiva;
Uso de aparelhos auditivos;
Implante coclear em casos específicos;
Reabilitação auditiva.
Quanto mais cedo a perda auditiva for identificada, maiores são as chances de preservar tanto a audição quanto a saúde cognitiva.
É possível prevenir?
Nem todos os casos podem ser evitados, mas algumas medidas reduzem o risco:
Evitar exposição prolongada a sons intensos;
Utilizar protetores auriculares quando necessário;
Controlar doenças como diabetes e hipertensão;
Não usar medicamentos sem orientação médica;
Realizar avaliações auditivas periódicas, especialmente após os 60 anos;
Procurar atendimento ao perceber qualquer dificuldade para ouvir.
A audição e a saúde cerebral estão muito mais conectadas do que se imaginava há alguns anos. Hoje, a ciência mostra que identificar e tratar precocemente a perda auditiva pode representar um importante cuidado para manter a cognição, a comunicação e a qualidade de vida durante o envelhecimento.
Se você ou um familiar percebe dificuldades para ouvir, não espere que os sintomas piorem. Uma avaliação especializada pode fazer toda a diferença para preservar não apenas a audição, mas também a saúde do cérebro ao longo dos anos.






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